A educação médica pré e pós-graduada resiste à adoção em larga escala das ferramentas digitais. O uso formal de aulas online ou webinars ainda é raro, persistem as aulas de exposição nos moldes tradicionais e os alunos não aproveitam a multiplicidade de metodologias permitidas pelas ferramentas digitais. A transformação digital na educação médica tem sido um processo lento – “esperava que em 2005 tivéssemos atingido o ponto em que estamos hoje”, afirmou um dos participantes neste webinar – e, por vezes, desmotivador.

Por um lado, a tecnologia evoluiu, existem ferramentas e recursos para ensino à distância que poderiam estar em pleno uso nas escolas médicas e hospitais. Por outro, existem momentos de ensino-aprendizagem nos quais o contacto presencial é a fonte de conhecimento. Que ferramentas e que conhecimentos são esses? Que competências são necessárias? Como se poderá dar a transformação digital na educação médica?

  1. E-learning não é sinónimo de tele-learning

No campo da educação médica, o conceito de e-learning tem sido confundido com tele-learning, ou seja, como uma metodologia de ensino à distância. Uma visão redutora, na opinião dos palestrantes, segundo os quais o desafio que se impõe é encontrar um equilíbrio entre os conteúdos e competências que podem ser treinados à distância e aqueles que apresentam vantagens em ser lecionados num contexto de presença de professores e alunos, sempre com suporte digital.

2. Da exceção à regra: a integração digital só é real quando é obrigatória

À semelhança do que aconteceu com outras áreas da digitalização da saúde, como por exemplo a prescrição, o sucesso da transformação digital das escolas médicas implica mudar os processos, ou seja, tornar regra aquilo que é atualmente a excepção. A digitalização tem de ser o novo normal. Adicionalmente, promover a integração e a interoperabilidade entre sistemas é mais vantajoso do que procurar um software para todas as necessidades.

3. Envolver os estudantes na transformação

Os alunos querem tirar partido da tecnologia para a sua formação e sentem-se frustrados quando não há essa possibilidade. Na maioria dos casos mais bem preparados e abertos para as possibilidades de formação via ferramentas digitais, os estudantes podem mesmo ser os “líderes” desta transformação, dependendo da capacidade de cada faculdade criar uma rede de colaboração entre o corpo docente e os alunos.

4. Construir um modelo de formação misto com base em necessidades

Num plano ideal, qualquer mecanismo de treino deve ser desencadeado por uma necessidade previamente identificada que é traduzida num objetivo a ser atingido pelo estudante. Depois de identificar os objetivos e respetivas competências, o passo seguinte deste modelo passa por cruzar as metodologias existentes, desde as mais analógicas às mais digitais, e identificar as mais efetivas e apropriadas para responder a cada necessidade, tendo também em conta os recursos disponíveis em cada instituição.

Neste webinar participaram David Riley, Diretor da EfficienC Health Technology - Spain, Henrique Martins, Internista e Professor de Gestão e Liderança em Saúde na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior (FCSUBI), Madalena Patrício, Professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e ex -Presidente da Association for Medical Education in Europe (AMEE), e Pedro Garcia, Neonatologista e Presidente da Sociedade Portuguesa de Simulação Aplicada às Ciências da Saúde (SPSim).

“Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a plataforma Evidentia Médica e a UpHill. A FCSUBI foi coorganizadora  da sessão dedicada à transformação digital na educação médica.