Desde o início da pandemia, vários estudos têm apontado para a mesma conclusão: os profissionais de saúde apresentam sinais de burnout, stress e ansiedade. Um questionário, realizado entre os dias 9 e 18 de maio, e que contou com a participação de 1500 inquiridos, entre os quais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, farmacêuticos e técnicos de diagnóstico, concluiu que 51% dos profissionais de saúde estão “em exaustão física ou psicológica” e que 35% “apresentam mesmo elevados níveis de exaustão”.

Um outro estudo desenvolvido pelo Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), que inquiriu 767 enfermeiros em atividade entre 31 de março e 7 de abril, concluiu que estes profissionais estão “mais ansiosos, com mais sintomas depressivos e com níveis mais elevados de stress”. Os dados divulgados referem também um elevado receio de infetar amigos e família.

O tema foi mote para mais uma sessão das Noites Contra o COVID-19. O webinar “Saúde Mental dos profissionais de saúde e COVID-19: uma visão a curto e longo prazo” contou com a participação de Marco Gonçalves, assistente hospitalar no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Miriam Garrido, interna de Psiquiatria no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Paulo Martins, diretor do Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Pedro Morgado, psiquiatra no Hospital de Braga e vice-presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho, e Renata Benavente, professora associada na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e vogal da Direção Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Incerteza, exigência e mudança de funções na origem da ansiedade

Entre os fatores que tornam os profissionais de saúde um grupo potencialmente vulnerável a sofrer problemas de saúde mental no contexto de pandemia, Miriam Garrido destaca o “nível de exigência sem precedentes” a que foram sujeitos, na medida em que o volume e o número de horas de trabalho aumentaram, bem como a introdução de equipamentos de proteção individual que constituem uma barreira adicional à comunicação, além do desgaste físico que acarretam. Além disto, a médica reforçou também que o facto de muitos profissionais serem colocados a desempenhar funções que não as habituais “acrescentou uma grande componente de incerteza ao turbilhão que estava a acontecer nos hospitais”, referindo-se particularmente à reorganização dos serviços e à implementação de novos protocolos de atuação.

Sobre o mesmo tema, Marco Gonçalves acrescentou ainda que, num contexto extraordinário como o de uma pandemia, existe o risco de se desenvolverem estereótipos, preconceitos e comportamentos discriminatórios face aos profissionais de saúde por serem um grupo em contacto direto com doentes infetados e que, face à escassez de informação credível, a equipa do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa teve que construir linhas de orientação internas e utilizá-las, simultaneamente, para esclarecer os doentes.  

Somadas todas as circunstâncias, os profissionais de saúde apresentaram níveis de ansiedade superiores, insónias, sentimentos de medo, tristeza e culpabilidade e dificuldade em tomar decisões.

As vulnerabilidades que a pandemia veio acentuar e a importância do autocuidado

À semelhança das intervenções anteriores, Renata Benavente enfatizou que as alterações na rotina dos profissionais de saúde e a incerteza face ao retorno à normalidade são dos principais fatores que podem desencadear níveis de stress acrescido, sinais que não devem ser negligenciados. Pedro Morgado defendeu que é preciso combater a ideia de que os profissionais de saúde são heróis que têm de estar sempre disponíveis, o que, na opinião do psiquiatra, é um dos principais motivos para a exaustão dos mesmos. “É muito importante que os profissionais de saúde reflitam sobre a necessidade de cuidarem de si para estarem capazes de cuidar dos outros”, rematou.

Por outro lado, o também vice-presidente da Escola de Medicina da Universidade do Minho clarificou que os estudos longitudinais revelam um efeito de adaptação ao longo do tempo: um início caracterizado por níveis muito elevados de ansiedade que vão diminuindo ao longo do tempo. O mesmo referiu Paulo Martins sobre a experiência vivida no Medicina Intensiva do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra: "O grande momento de ansiedade foi o inicial. A partir do momento em que recebermos o primeiro doente a equipa lidou perfeitamente com a situação”.

O psiquiatra Pedro Morgado acrescentou ainda que, no contexto da pandemia, todos os fatores já conhecidos para uma pior saúde mental das equipas  mantêm-se: “Serviços em que os profissionais têm baixa autonomia e baixa capacidade de decidir são aqueles onde os profissionais estão mais exaustos e apresentam maiores níveis de absentismo”. Com base num estudo que será brevemente publicado, revelou também que os médicos apresentam níveis de stress mais elevados que a população em geral, que os níveis de ansiedade dos médicos na linha da frente são significativamente superiores aos restantes profissionais, e que os médicos apresentam mais sintomas obsessivos que a restante população.

Sobre o que faz falta para melhorar a saúde mental, as respostas convergem para melhores condições de trabalho: segurança, nomeadamente equipamentos de proteção individual em qualidade e quantidade, mais períodos de descanso entre turnos e melhores condições salariais. “Estes dados são muito semelhantes ao que aconteceria numa situação de não pandemia”.

As respostas da Psicologia e da Psiquiatria no contexto da pandemia

Entre as respostas encontradas para superar os desafios impostos pela pandemia, a Ordem dos Psicólogos criou um gabinete de crise responsável por elaborar orientações para a intervenção psicológica à distância, documentação para a população em geral com materiais sobre questões de violência no contexto familiar ou a especificidade dos idosos em Estruturas Residenciais para Idosos, linhas de orientação para o autocuidado dos profissionais de saúde e implementou a linha de Aconselhamento Psicológico do SNS24.

Uma outra iniciativa – a Plataforma Cuidar de Quem Cuida – da Escola de Medicina da Universidade do Minho nasceu para oferecer apoio gratuito à distância na área da saúde mental aos profissionais em instituições na linha da frente. Atualmente já foram realizadas mais de 150 consultas.

“Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Ata Médica Portuguesa, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a Evidentia Médica e a UpHill.