À medida que o ritmo das mudanças científicas e tecnológicas acelera, aumenta também a necessidade de os profissionais de saúde se manterem atualizados. A proliferação de informação médica representa um desafio, quer em termos de volume, quer em termos de complexidade. Além disso, estas mudanças estão frequentemente associadas a novas abordagens clínicas e, consequentemente, a atualização dos profissionais torna-se crucial para a segurança do paciente e para a prestação de cuidados de qualidade.

A questão adensa-se se ao volume de informação adicionarmos a cada vez maior complexidade dos doentes. Vejamos: atualmente, a esperança média de vida dos portugueses ultrapassa os 80 anos e o número de pessoas com mais de 75 anos é superior a um milhão. Viver mais anos é uma conquista, mas viver melhor é um desafio, especialmente para quem lida diariamente com a saúde dos outros.  O contexto demográfico marcado pelo envelhecimento da população tem reflexos no estado da Saúde, com destaque para o aumento significativo de doenças crónicas e as pessoas com múltiplas patologias que exigem uma complexidade de cuidados inquestionável.

No campo da Saúde, não basta que os profissionais estejam a par da evidência científica mais recente: é-lhes também exigido que saibam adaptar os conhecimentos científicos à sua prática diária e às necessidades dos doentes e, simultaneamente, que cooperem em comunidades cada vez maiores de prestadores de cuidados consolidados.

Num panorama geral, e de acordo com dados da PwC, quando pensam no futuro das instituições de saúde, os CEOs da indústria revelam preocupação com  a disponibilidade de competências essenciais. Simultaneamente, as administrações hospitalares têm demonstrado um foco cada vez maior na gestão eficaz da performance das equipas, com o intuito de permanecerem relevantes e competitivas no setor .

Os números mostram que há, claramente, uma forte tendência para promover meios eficientes para aprimorar conhecimentos teóricos e competências práticas: o último relatório divulgado pelo The Accreditation Council for Continuing Medical Education (ACCME) indica que, em 2018, foram realizadas mais de 179 mil atividades de formação médica nos Estados Unidos, um aumento de 17% face ao ano anterior. Na Europa, não existe uma abordagem comumente disseminada para a aprendizagem ao longo da vida, mas verifica-se um amplo consenso de que os pacientes são melhor atendidos quando aqueles que prestam cuidados estão munidos de estratégias de aprendizagem e avaliação contínuas.

Uma revisão sistemática dos estudos que se detêm sobre a relação entre a atualização dos profissionais de saúde, o seu desempenho e os resultados para o doente convergem para a conclusão de que a formação é tanto mais efetiva quanto mais interativa, diversificada, prolongada e focada em resultados considerados relevantes pelos profissionais fôr a abordagem.

O investimento em educação médica representa, anualmente, um investimento de mais de dois mil milhões de dólares, nos EUA. E que impacto tem este valor para a prestação de cuidados? Um relatório sobre as atividades de formação promovidas pelo American College of Physicians na área da fibrilhação auricular concluiu que os participantes aumentaram o grau de adoção práticas baseadas na evidência em cerca de 50%. Um outro estudo avaliou o impacto económico de atividades de educação médica contínua junto de cirurgiões cardiotorácicos e os resultados revelam, por exemplo, que a prevenção de complicações hemorrágicas em apenas 2% das cirurgias realizadas anualmente permitiria poupar até 2,7 milhões de dólares. No caso da sépsis, os dados relativos à Surviving Sepsis Campaign, destinada a promover a adesão a guidelines na abordagem a doentes com choque séptico ou sépsis severa, mostram que a atualização dos profissionais está associada a uma redução de 25% do risco relativo na taxa de mortalidade.

É expectável que a educação médica seja encarada como parte integrante da prestação de serviços de saúde. Em causa está a eficiência na gestão dos recursos disponíveis, tanto humanos como financeiros, a reputação da instituição, a retenção de talento humano, a criação de equipas orientadas por indicadores de qualidade claros, a capacidade de cumprir prioridades estratégicas que otimizam os resultados gerais e, por fim, a qualidade dos cuidados prestados.