Se antes a Saúde estava essencialmente conformada com o formato presencial, a pandemia obrigou o setor a reinventar-se em poucos dias: o que estava latente e em fase de desenvolvimento acabou por ser lançado num ápice, a atividade assistencial abraçou as teleconsultas, as aulas e formações médicas adotaram o formato online e a produção de conteúdo digital passou de recomendação a regra.

Neste contexto, de que forma o digital se tornou um facilitador na Saúde? Até que ponto esta transformação vai chegar às escolas de medicina? Vamos abandonar os formatos tradicionais? Como evoluirá a educação médica nos próximos 5 anos? Estes foram alguns dos temas em discussão no webinar “Educação médica contínua durante o COVID-19: uma perspetiva transatlântica”, que juntou a visão portuguesa de Cláudia Silveira, diretora do Lusíadas Knowledge Center do Grupo Lusíadas Saúde, e de Duarte Sequeira, COO e cofundador da UpHill e Assistente Convidado da Universidade da Beira Interior (UBI) à perspetiva da brasileira Laura Schiesar, diretora da Educação Corporativa do UnitedHealth Group (UHG) Brasil. Sofia Fernandes Martins, Head of Talent do Grupo Lusíadas, moderou o debate.

Da discussão gerada pelas diferentes experiências e contextos no âmbito do COVID-19, destacaram-se cinco ideias do que se pode esperar do futuro da educação médica:

1.   Um novo paradigma de treino na Medicina

Segundo Duarte Sequeira, a pandemia veio evidenciar de forma crítica o gap entre o conhecimento que os profissionais de saúde já têm e aquilo que precisam de saber de forma rápida em relação à evidência científica mais recente, pois ainda se está longe de um  conhecimento aprofundado sobre o COVID-19. Neste sentido, para o cofundador da UpHill “aquilo que deve definir o paradigma de treino na Medicina, é um modelo que permita ter a evidência científica mais recente e sob curadoria e aquela que é aplicável ao nosso contexto, entregue de forma rápida e em vários formatos (texto, protocolos clínicos, casos clínicos simulados) ao profissional para o preparar para qualquer mudança, seja ela mais lenta ou mais abrupta, como foi o caso atual”.

2.   A abertura de novas carreiras dentro da medicina

“A pandemia vai obrigar a mudanças e descoberta de novas áreas na medicina, resultando em novos perfis de médicos no futuro”. Esta é a visão de Claúdia Silveira, que vê uma maior aposta na área da investigação tecnológica, na aceleração da área de data medicine e um aumento da importância da área de epidemiologia e bioestatística. Para a diretora do Lusíadas Knowledge Center do Grupo Lusíadas Saúde, no futuro vamos ter teckie doctors, focados em criar soluções tecnológicas para inovar o setor, data doctors, dedicados a entender e prever respostas com base nos dados, e analytics doctors, que definem as melhores medidas de prevenção com base nas estatísticas.

3.   A revalorização do conhecimento dos profissionais de saúde

Tanto no Brasil, como em Portugal, Laura Schiesar não tem dúvidas de que a pandemia trouxe uma revalorização do conhecimento dos profissionais de saúde e dos próprios Sistemas Nacionais de Saúde, sendo que, no Brasil, esta questão foi crítica. Durante a pandemia, foram os peritos a ser ouvidos. Segundo a diretora de Educação Corporativa do UHG, “na visão de gestão de saúde, isto faz com que a importância de saber gerir uma crise tenha sido bastante reforçada em vários aspetos: não só na gestão hospitalar, no fornecimento adequado de equipamentos de segurança e na capacitação contínua dos profissionais, como na capacidade liderança e nas relações humanas”.

4.   Um novo olhar sobre a empatia nas escolas médicas

Numa altura em que assistimos a um reforço do aspeto humano, da solidariedade e da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, Claúdia Silveira e Laura Schiesar vêem a empatia e a colaboração a sobressair como temas nas escolas médicas. O sentido de urgência que se instalou de forma generalizada para criar novas soluções, faz com que seja essencial treinar profissionais de saúde, não para trabalhar em silos, mas para passar a trabalhar de forma mais concertada, coesa, multidisciplinar e interdisciplinar. Segundo ambas, só assim conseguiremos prestar bons cuidados de saúde.

5.   A importância de uma formação generalista

Os três especialistas concordam que, dado o contexto urgente, a questão de um profissional ter uma formação mais generalista e de atuar de forma mais ampla tornou-se ainda mais relevante. O treino e a formação devem ser mais abertos, flexíveis e personalizados, focando também áreas de urgência e o uso de novas tecnologias. Está na altura de voltar a falar na inclusão de várias especialidades no perfil do profissional de saúde, pois também o doente pode apresentar várias patologias. Para isto, Duarte Sequeira acredita que não é necessário o profissional, previamente, treinar e aprender sobre certas matérias, desde que, no tempo certo e durante o tempo necessário, esse conteúdo lhe apareça de forma rápida e este o possa usar enquanto está perante um doente com uma patologia que desconhece. Ao pouparmos tempo aos profissionais, ajudando-os a adotarem as melhores práticas com base na evidência, estaremos a melhorar os resultados dos cuidados e a previsão de resultados.

“Noites Contra o COVID-19” é um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a Ata Médica, a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a plataforma Evidentia Médica e a UpHill. O próximo webinar já está marcado para dia 17 de junho e será focado no tema Saúde Mental dos profissionais de saúde e COVID-19 - uma visão a curto e longo prazo.