Cerca de 47% dos hospitais em Portugal têm projetos de inteligência artificial, segundo o Barómetro da Associação Portuguesa de Administração Hospitalar (APAH). Transcrição por voz, agendamento de atividades clínicas e interpretação ou extração de informação dos processos  são as áreas com mais projetos em curso.

De facto, as tecnologias preditivas progrediram e a ânsia de implementação tem ofuscado a necessidade de uma definição clara de objetivos e impacto esperado.

Num sector onde o custo de oportunidade é alto e o tempo dos profissionais cada vez mais limitado, a tecnologia não pode ser vista como uma finalidade, quando é, na verdade, apenas um meio. Não deve ser uma bandeira agitada pela força dos lugares-comuns que saturam a imprensa: AI, machine learning, deep learning, computer vision, etc.

As iniciativas de base tecnológica - eHeath - devem ser desenhadas para resultar num impacto positivo para os doentes sob a forma de melhores resultados em Saúde. Para tal, devem maximizar a qualidade da prestação assistencial. As unidades de Saúde precisam de um sistema que permita identificar onde investir, numa filosofia de melhoria contínua da qualidade.

Sugiro recuarmos aos anos 60 onde Avedis Donabedian, médico e pai da garantia de qualidade em saúde, estipulava que a qualidade era dependente de três factores: infra-estrutura, processos e resultados.

Hoje, muita atenção é dada à infraestrutura, basta apreciar os hospitais-escultura, obras Pritzker, em construção de norte-a-sul do país.

Mais destaque é atribuído aos resultados em saúde, alinhados com a tendência da medicina baseada no valor (Value Based Healthcare), por Michael Porter, e à medição de satisfação reportada pelo doente.

No entanto, pouca atenção é dada ao processo e aos seus intervenientes. Um paradoxo de difícil explicação, pois os resultados em Saúde são produto dos processos - da organização dos recursos em torno do doente - e dos agentes que os executam.

O foco dos projetos tecnológicos na Saúde, para uma utilização custo-efetiva, deve ser o de maximizar este terceiro pilar da qualidade, através da capacitação dos profissionais de Saúde. Os médicos, bem como outros intervenientes da Saúde, são o garante da qualidade assistencial e os esforços tecnológicos deverão estar centrados no seu empoderamento.

As iniciativas tecnológicas de incremento contínuo da qualidade serão tanto mais importantes quanto mais sinergias tiverem com as equipas em Saúde. Estas constituem o agente de melhoria e também o repositório de conhecimento e competências.

Os modelos de inteligência artificial devem ser implementados de forma híbrida e não dissociada, integrando o profissional e constituindo modelos de inteligência colectiva. Nestes, equipas e máquinas cooperam para atingir uma maior eficácia através de processos mais adaptados, mais atualizados e com uma maior adesão de todos.

Cooperam para reduzir o desperdício de energia no sistema. Cooperam para melhorar os resultados em Saúde.

A inovação no eHealth caminhará no sentido de facilitar a inteligência coletiva, natural.

Para que a tecnologia possa potenciar o que de melhor se faz: cuidados de qualidade, baseados na evidência e centrados na pessoa.

*artigo publicado originalmente em Médico News