Em tempos de quarentena, os portugueses aumentaram o consumo de informação com especial destaque para a televisão e para os meios de comunicação social com presença online. Os números não deixam margem para dúvidas: entre a semana de 2 e 8 de março – altura em que surgiram os primeiros casos de COVID-19 em Portugal – e a semana de 16 e 22 de março, as visualizações semanais de sites de informação aumentaram dispararam 68%, segundo os dados divulgados pela Marktest. O mesmo cenário verificou-se nas audiências da televisão, com destaque para os canais informativos.

Três mensagens-chave sobre Comunicação e Saúde em tempos de crise:

  1. Mesmo que haja atraso: verdade, qualidade e rigor primeiro e assumir que ainda não há respostas

“Não me recordo de  outra altura em que as perguntas sejam mais notícia que as respostas”. Paula Rebelo, jornalista da RTP que há mais de 20 anos se dedica à cobertura de temas de ciência e saúde, garante que os tempos atuais são desafiantes também para quem informa, mas o sentido de responsabilidade “imensamente acrescido” que marca o contexto atual justifica que os jornalistas saibam esperar para divulgar a informação. Quando as respostas escasseiam, assumir que não se sabe é, segundo a jornalista, o caminho mais responsável. Hélder Silva, editor da RTP, acrescenta: “Não podemos eufemizar a realidade e dizer que sabemos aquilo que não sabemos. Podemos explicar que nós não sabemos, mas que há quem esteja a tentar saber, o que diminui a sensação de angústia e de pânico junto dos espectadores”.

2. Necessidade de transparência sobre as fontes de informação

“Este é o momento de esclarecer e de comunicarmos cada vez mais”. Segundo o assessor de imprensa do Centro Hospitalar e Universitário São João (CHUSJ) a grande mudança na postura dos prestadores de cuidados de saúde decorre da mudança de foco das redações, que passaram a priorizar os temas de saúde, e do volume de questões que exigiu que as “portas do hospital” fossem abertas. As regras de comunicação de crise ditam que exista uma hierarquia da informação e porta-vozes definidos, mas no momento atual, e na visão da jornalista Paula Rebelo, justifica-se o contacto com outras fontes de informação que estejam a trabalhar no terreno de forma a “quebrar o ruído mediático de outros interlocutores” que podem ser contraproducentes no tão desejado trabalho de esclarecimento.

3. Traduzir informações complexas

“A literacia em saúde é a chave para este e outros problemas”. Duarte Brito, membro da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), considera que pandemia colocou os médicos especialistas em Saúde Pública debaixo dos “holofotes mediáticos”, circunstâncias que possibilitam que a informação seja veiculada por especialistas, de forma fidedigna. Uma realidade que acontece tanto entre especialistas em saúde pública e outros profissionais de saúde – que criaram agora canais de comunicação para o fazer –, como entre os profissionais e a população. No segundo caso, mais do que partilhar a informação, é preciso traduzi-la para a comunidade leiga: “Além de honestidade na forma como relatamos a realidade, é preciso oferecer alternativas à população”, conclui.

Uma nota final deixada pelos vários oradores: o contexto atual é uma oportunidade para mudar a comunicação de saúde e criar sinergias entre os vários intervenientes no circuito.

Nunca se consumiu tanta informação como agora e nunca antes esta foi tão importante para a saúde da sociedade. Neste contexto, que responsabilidade têm os órgãos de comunicação social? Que papel cabe às instituições públicas e aos gabinetes de comunicação dos hospitais? Que articulação deve ser feita entre fontes oficiais e jornalistas? Como se podem comunicar conceitos complexos de epidemiologia e, simultaneamente, assumir a incerteza que existe relativamente à doença? Estes foram alguns dos temas em discussão no webinar Comunicação e Saúde em tempos de crise, que juntou Duarte Brito, médico interno de Saúde Pública e membro da ANMSP, Hélder Silva e Paula Rebelo, jornalistas da RTP, Nuno España, diretor de Marketing e Comunicação dos Lusíadas, e Rui Neves Moreira, assessor de imprensa do CHUSJ e partner da CCCP. José António Pereira, também jornalista da RTP, moderou a conferência.

A próxima sessão das “Noites Contra o COVID-19”, um ciclo de webinars promovido pelo COVID19PTCiência, consórcio que junta a ANMSP, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a Evidentia Médica e a UpHill, está agendada para o dia 6 de maio e será dedicada ao tema Digital transformation of medical education.