No terceiro período do estado de emergência e num momento em que o “regresso à “nova” normalidade” começa a ser estudado pelas entidades políticas, um bioestatística, um macroeconomista, uma médica interna de Saúde Pública e uma socióloga juntaram-se nas “Noites Contra o COVID-19”, para pensar as estratégias de saída da pandemia. Do caminho percorrido até então, a adoção precoce de medidas de distanciamento social e a colaboração entre a comunidade científica, o tecido empresarial e a sociedade  civil ocupam os lugares cimeiros dos pontos positivos a destacar; enquanto a letalidade e amplitude da pandemia, a par do seu impacto económico e social, constituem as principais fontes de preocupação.

As respostas da Saúde Pública e da Epidemiologia

A incidência da doença atingiu um nível que se mantém desde o final do mês de março. Genericamente, o país tem sabido responder à pandemia com esforços mobilizados entre os vários setores, mas entre os aspetos menos conseguidos, Ana Beatriz Nunes, médica interna de Saúde Pública, salienta os sistemas de informação que “muitas vezes, não respondem às necessidades da Saúde Pública pela lentidão do seu funcionamento”, “as fragilidades dos fluxos de informação entre os vários níveis do sistema de saúde” e a falta de celeridade na obtenção de resultados laboratoriais.

Baltazar Nunes, epidemiologista, destaca que “mais importante que prever o que vai acontecer é saber que ações tomar para alterar o percurso de como a pandemia se está a desenvolver”. O regresso à convivência social, deve, por isso, ser feito de forma lenta e faseada, “medida por medida” para avaliar o impacto epidemiológico e social de cada uma, no sentido de assegurar que o número de novos casos se mantém abaixo do limiar da sobrecarga do sistema de saúde.

Os dois especialistas não afastam a possibilidade de o levantamento das medidas restritivas ser acompanhado de um aumento do número de novos casos de COVID-19, pelo que destacam a importância de acompanhar os indicadores de mortalidade e letalidade, a dinâmica de transmissão do vírus e monitorizar a capacidade hospitalar, nomeadamente a capacidade de resposta das unidades de cuidados intensivos e a disponibilidade de ventiladores.

Um retrato sociológico da pandemia

Os efeitos económicos da pandemia são assimétricos, os jovens defendem mais medidas de restrição e são os mais velhos quem tem mais facilidade em lidar com o confinamento e mais confia nas fontes oficiais. Os dados são de um inquérito realizado entre 25 e 29 de março, pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), que inquiriu 11.500 pessoas para avaliar o impacto social do COVID-19. As conclusões levam Rita Gouveia, investigadora do ICS, a afirmar que “a pandemia também é uma realidade sociológica”, que veio “agravar desigualdades e vulnerabilidades sociais que já existiam”.

Apesar de um terço dos inquiridos revelar dificuldade em lidar com as restrições impostas pelo estado de emergência, os efeitos económicos e sociais da pandemia são assimétricos e essa assimetria tenderá a acentuar-se ao longo do tempo. Na fase inicial da pandemia as pessoas em situação económica mais precária já eram as mais afetadas financeiramente, por efeitos de desemprego, perda parcial de rendimento ou férias forçadas. As preocupações relativamente ao futuro prendem-se, sobretudo, com o percurso escolar e académico, no caso dos jovens entre os 16 e os 24 anos, e a dificuldade de conciliar trabalho e família para os adultos em idade ativa.

A incerteza dos consumidores no regresso à normalidade

“Uma situação única do ponto de vista económico, que não é comparável a nada que tenha acontecido nos últimos 100 anos”. A explicação está na origem do problema: combater uma crise de saúde pública implica medidas de confinamento e distanciamento social que envolvem uma paragem controlada e voluntária da economia.

Os efeitos, mais ou menos permanentes, das medidas dependem, naturalmente, da duração do problema do ponto de vista da Saúde Pública e, consequentemente, do prolongamento da interrupção de parte da atividade económica. Ainda assim, Miguel Faria-e-Castro destaca: “levantar as medidas de confinamento demasiado cedo, antes de a situação estar controlada, pode ter custos permanentes para a economia”. De acordo com o macroeconomista, não é vantajoso “reabrir a economia por decreto” por uma questão de incerteza e falta de confiança do ponto de vista do consumidor.

Uma nota final para a situação europeia e os coronabonds: “ou os critérios de Maastricht são relaxados, e a União Europeia deixa que os estados-membros gastem mais do que está estipulado, ou os gastos relacionados com a situação atual têm que ser mutualizados”.

Com moderação de André Peralta Santos, investigador da Universidade de Washington e membro da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), o webinar contou com a participação de Ana Beatriz Nunes, médica interna de Saúde Pública no ACES Alentejo Central e secretária geral da ANMSP; Baltazar Nunes, do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e professor de Estatística e Epidemiologia na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP); Miguel Faria-e-Castro, macroeconomista e investigador da Reserva Federal de St. Louis; e Rita Gouveia, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL).

A próxima sessão das “Noites Contra o COVID-19”, um ciclo de webinars promovido pelo projeto COVID19PTCiência que junta a  Evidentia Médica, a ANMSP, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) e a UpHill, acontece no dia 27 de abril.